

Às margens do brejo do Ouro, em meio a buritizais e árvores frondosas de galhos retorcidos, no território Grinalda do Ouro, município de Gilbués, aconteceu, nos dias 21 e 22 de junho de 2025, o VI Encontro dos povos e comunidades tradicionais do cerrado do Piauí.
O encontro tem um caráter político festivo, de partilha do trabalho e animação da coletividade. A mística de abertura do encontro enalteceu a resistências dos povos tradicionais, onde bandeiras de luta, frutos da terra e as ferramentas de trabalho trazidos por crianças, adultos e idosos foram apresentados como oferenda ao altar celebrativo da vida.
A primeira parte da manhã do sábado foi assessorada por Arielle Almeida, advogada popular da Associação de Advogados dos Trabalhadores Rurais- AATR BA que abordou as formas e processos de distribuição de terras no Brasil e a legislação de terras no estado do Piauí violências e injustiças históricas e atuais.
Em sua fala que a terra é nossa ancestral primeira e que faz parte da identidade de cada povo, é parte da família, é lugar de morada, lugar de identidade.
“Quando a gente vai se apresentar, falamos o nosso nome e sobrenome, a nossa identidade e o lugar onde moramos, porque só existimos no território, o território também é parente” – Arielle Almeida – AATR -BA
Nome, sobrenome, o lugar onde moram dizem muito sobre a história e a vida dos povos através das relações estabelecidas entre as pessoas e ambiente onde vivem, a terra também é parente, tem afeto e cuidado mútuo.


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Em seguida Altamiran Ribeiro, agente da CPT na diocese de Bom Jesus, fez um resgate da história das resistências do Coletivo, do início da mobilização das lutas, das pesquisas realizadas pelos parceiros e das denúncias em nível regional, nacional e internacional reforçando a importância da organização e da resistência coletiva para os avanços já conquistados e para os que ainda estão por vir. “Nosso lema é Insistir e resistir no direito de existir e nós vamos continuar juntos até alcançar nossos objetivos” reforça Altamiran.
A resistências dos povos e comunidades também é de incidência política sobre as leis ambientais e agrárias, ambas estão totalmente relacionadas porque a o meio ambiente é a própria terra, no entanto essas legislações tem sido flexibilizadas amplamente desde 2020.
“Desde o governo Bolsonaro a flexibilização da legislação ambiental tem sido ampla e permanente até hoje, recentemente o senado aprovou a PL da devastação (Lei 2159/2021 ) que facilita o licenciamento de áreas dos territórios tradicionais, impactando diretamente os povos e comunidades do cerrado e aumentando os conflitos no campo”, afirma Antônio Eusebio, Coordenado colegiado da Comissão Pastoral da Terra no Piauí.
Participar do Coletivo é uma estratégia encontrada pelos povos e comunidades tradicionais do cerrado do Piauí para que juntos, pensar, planejar e construir estratégias de resistências, onde uma comunidade apoia a outra e a soma das forças estejam alinhadas em diferentes aspectos da legislação e nas reinvindicações de políticas públicas.
Nós não somos vistos, nós não temos acesso a políticas públicas importantes, não temos estrada, não temos energia elétrica, só temos iluminação do sistema solar (energia fotovoltaica) que conseguimos com o nosso próprio esforço, para os políticos do nosso município sentimos tudo isso como uma fraqueza. Lutamos para tirar o nosso sustento da terra, porque é aqui que moramos e é aqui que queremos permanecer- Sergio Sousa, Comunidade Lagoa do Martins, território Brejo do Miguel
O VI Encontro dos Povos e comunidades do cerrado do Piauí, reforçou a importância da luta coletiva, d a unidade, da insistência, da organização comunitária, da força construída pelas mãos de cada pessoa que compõe o Coletivo e que contribui para a sua permanência.
Participação das mulheres do Coletivo
Durante o encontro, foi marcante a participação das mulheres, seja nas discussões, nas proposições e denúncias, mas principalmente na apresentação de uma carta política, aberta, onde elas se apresentam como parte da força que mantém o cerrado em pé e da luta coletiva que constrói as resistências.






Desde a criação do Coletivo a participação das mulheres nos encontros, formações e espaços de discussão é tímida e resumida, neste ano, elas estiveram na organização, na infraestrutura, nas denúncias e proposições ao lado de seus companheiros e algumas são lideranças de seus territórios, como Zulmira, Cacica da TI Akroá-Gamella Vão do Vico, município de Santa Filomena-PI. “A gente quando é mulher, somos olhadas com outro olhar, como se fossemos rebaixadas, mesmo assim a gente ganha força pra lutar mais… Meu marido aceita eu viajar, não, mas eu vou. Eu vou porque eu estou lutando pelo direito do nosso território, meu pai morreu na luta, por causa disso eu vou lutar até o fim.
Zulmira destaca o machismo e o racismo enfrentados pelas mulheres, independentemente de quem são, onde elas estejam, a função que ocupam os marcadores sociais ampliam o preconceito e a discriminação contra as mulheres.

“Nós mulheres somos a chave do nosso território, não podemos abaixar a cabeça porque um fulano diz que porque somos mulher, não é pra estar naquele lugar, assim como fizeram com a ministra Marina, o que ele quis dizer é que não era pra ela estará ali falando sobre aquilo. Além da gente ser indígena, quilombola, negra somos mulheres, sofremos preconceitos, mas as mulheres podemos estar onde a gente quiser”.
A carta das mulheres do Coletivo dos povos e comunidades tradicionais do cerrado do Piauí foi um destaque, em manifesto, da presença atuante das mulheres no Coletivo no e denuncia as violações especificas sobre seus corpos-territórios e reivindicam políticas públicas especificas para elas e seus territórios.

Foto: Jéssica Carvalho/SAF
“…Nossa história é marcada por luta, sabedoria e resistência. Lutamos por nossos territórios, por renda digna, pela preservação do nosso bioma, pelo nosso modo de vida. Lutamos para continuar existindo como povos do cerrado...”
Para ler a carta completa cliquei aqui:
O encontro encerrou no domingo com a celebração eucarística realizada pelo pároco da cidade, renovando a espiritualidade dos povos num envio de ânimo e fé para a continuidade da caminhada.
Comunidades e organizações presentes np VI Encontro dos Povos e Comunidades do Cerrado do Piauí:
Salto I e II- Bom Jesus, Lagoa dos Martins, Cabeceira do Rio, Brejo do Miguel, Grinalda do Ouro – Gilbués, Morro d’água I e II – Baixa Grande do Ribeiro, Melancias Riacho dos cavalos, Serra Partida – Bom Jesus, Rio Preto- Bom Jesus, Comunidade Várzea Grande – Cristino Castro, Território Quilombola Limoeiro – Barreiras-PI, TI Akroá-Gamella Vão do Vico- Santa Filomena, Território Ribeirinho Brejeiro Barra da Lagoa – Santa Filomena, Chupe I – Santa Filomena, Território Morrinhos- Uruçuí, Agente de desenvolvimento territorial -Morro cabeça no tempo, Projeto juventude rural transformadora , Comissão Pastoral da Terra.
- SAF – Secretaria de Agricultura Familiar
- MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores
- Agência DesEnvolvimento – Barreiras- BA
- Associação de Advogados dos Trabalhadores (as) Rurais – AATR – BA
- Comunidade tradicional Cachoeira – município de Formosa do Rio Preto- BA
Território Grinalda do Ouro
A nascente do brejo de são josé está localizada no alto de uma serra, no Município de Gilbués, à medida que as águas descem, vão brotando vida e comunidades. A comunidade Ouro se instala há mais de 300 anos num braço desse brejo, lugar em que os mais antigos diziam ter encontrado ouro em suas águas e ali se estabeleceram.
O tempo passou e mais adiante daquela comunidade, o brejo de São José foi o lugar escolhido para os descendentes do Ouro que assim como as águas quando se juntam, cresceram. Grinalda é outra comunidade formada pelos descendentes da Ouro às margens do brejo Grinalda. Hoje o território Grinalda do Ouro é formado 14 famílias que resistem pela terra e pela vida.
Leia a carta na íntegra: Acesse aqui.
Texto e Imagem: Teresinha Menezes